A Festa do Fim do Mundo

21 dez

Julia estava em Amsterdã de férias, pela primeira vez na Europa.

No dia do Fim do Mundo, Pedro, seu companheiro de meia década chegou ao Hostel com um par de ingressos para uma festa com tema apocalíptico em um bunker.

A ideia a animou bastante e as dez da noite o casal estava de mãos dadas na fila, ela numa White tank sem sutiã, um casaquinho vintage, saia preta, sapatilhas e cabelos pretos soltos nos ombros, ele com as mangas da camisa dobradas mostrando seu par de mangas tatuadas por baixo, barba castanha e um par de Vans nautic. Era o casal mais descolado naquela festa estranha.

Desceram a escada de 50 metros de altura, e entraram no bunker (que cheirava a medo de paranoico rico que viveu durante a guerra fria), deixaram nomes com a hostess de sotaque do leste europeu e se esqueceram 3 minutos depois da profundidade de onde estavam, era uma ótima festa, com música acertada e pessoas bonitas.

Pedro respondeu um ‘Brasil’ para um francês ensebado no bar, que imediatamente começou uma animada conversa, Julia – que voltava do banheiro -, fez careta pelas costas do francês e acenou a pista, Pedro piscou e começou a discutir futebol com propriedade com o francês (que acabara de contar ser jornalista esportivo). O francês pediu um par de Johnnie Walker e Julia preferiu ir dançar sozinha.

New Order. Luzes. Fumaça de maconha, cigarros e charutos.  Um sorriso de uma ruiva estonteante do outro lado da pista. Sorriso de volta. Vestido e scarpins pretos. Sardas. Cabelos cacheados. Não entendeu seu nome. britânica. Adorou suas sapatilhas. Amou seu corte de cabelo. Tequila? Tequila! (Arriba, Abajo, Al Centro, Adentro!). Continue lendo

Sexo [2 de 3], Tomas Kundera

31 jul

Tomas estava encostado nu numa parede de banheiro fria. Tragava um cigarro.

O banheiro lembrava o da casa de sua tia, com gatinhos em alguns azulejos e uma pia de louça verde.

Tomas era publicitário por formação, mas trabalhava como editor de uma revista masculina de grande circulação. Achava os seres humanos tristemente parecidos, vendo apenas breves vislumbres de singularidade na sexualidade feminina. Tomas amava descobrir essas singularidades, e se envolvia com um numero alto de mulheres. Para tal feito, não usava de muito esforço, era bonito e naturalmente sedutor e sua postura e segurança (vinda boa parte pelo sucesso e pelo status) faziam dele, uma combinação irresistível.

Depois de mais de dez anos neste estilo de vida, encontrar singularidades tornou-se mais difícil, e adquiriu gostos mais peculiares, deixando modelos anorexas de rostos perfeitos de lado, preferindo maquiadoras andrógenas ou camareiras desengonçadas.

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Tomas terminou o cigarro e o jogou no vaso, depois urinou na pia – era um hábito canino que lhe passava despercebido -, e caminhou até o quarto.

Débora estava deitada vestida apenas com uma camiseta branca, olhando maravilhada para a parede branca a sua frente.

Tomas olhou a cena por alguns segundos e depois começou a recolher suas roupas.

Aquele olhar e aquela camiseta eram uma das singularidades que Tomas tanto procurava.

Débora era fotografa, tinha distúrbio de déficit de atenção bem acentuado, nunca permitia ninguém ver seus seios (salvo uma namorada, no aniversário de ano de namoro), que eram pequenos e firmes, razão pela qual era constante ela vestir camisetas sem sutiã.

Tomas a olhou mais uma vez, e deu-lhe as costas para vestir sua jeans, quando foi interrompido por um abraço por de trás. Debora soltou-lhe a calça com uma mão e alcançou seu sexo com a outra.

O olhar singular de D.D.A. sonhador que Débora deu a Tomas durante o orgasmo, foi idêntico ao que ela deu a parede, e Tomas achou que era a coisa mais linda do mundo.

Sexo [1 de 3], Draküla.

19 jul

Parti procurando um canto isolado, onde podia dar descanso ao meu coração.

Estacionei o carro num restaurante de beira de estrada e acendi um cigarro. Lembrei-me de onde fumei o seu antecessor há algumas horas…

Estava parado na frente de uma loja de perucas no Arouche.

Traguei. Mudei as pernas de posição. Senti a lâmina se movendo na cintura.

Caia noite em São Paulo e eu olhava para a porta do prédio decrépito do outro lado da rua, onde ela mantinha seu quarto secreto.

O jovem saiu pela porta, olhou para os dois lados (não reparou em mim) e abriu um guarda chuva. Não contive um sorriso: era uma garoa patética e ele era apenas um garoto efeminado e esquálido com as bochechas vermelhas. Pagaria posteriormente com sangue.

Dei a última tragada e joguei o cigarro no meio fio, atravessei a rua e entrei pela porta.

Subi os degraus familiares, que rangiam no mesmo lugar, até a porta do quarto dela. Toquei a campainha e ouvi uma exclamação de prazer, seguida por passos rápidos de seus saltos no chão de madeira podre e a porta abriu.

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A alegria esvaiu-se de seu rosto quando viu quem era, ficou parada e eu entrei.

O quarto possuía um banheiro cheio de infiltrações, uma mesinha com jogo nos pés e uma cama simples com lençóis bagunçados.

O ar estava úmido e cheirava a sexo, de uma forma que só era possível quando duas pessoas se fechavam por horas.

Ela caminhou até mim, e aninhou sua cabeça em meu peito enquanto me abraçava muda.

Calma e carinhosamente, trancei seus cabelos loiros e curtos com meus dedos e puxei sua cabeça pra trás, abri um sorriso, que após um momento ela retribuiu.

Beijei seu pescoço exposto e ela gemeu, então penetrei-lhe o ventre com minha lâmina. Ela não gritou, apenas me olhava com indigação e surpresa. Foi a última vez que fizemos amor.

Procuro um canto isolado onde possa dar descanso ao meu coração.

Joguei o cigarro na estrada e abri o porta malas. Meu coração estava pálida e envolta com meu sobre tudo, seus olhos ainda me fitavam. Peguei algumas moedas em um bolso interno, fechei-a e caminhei para um café no restaurante.

“Smile Like You Mean It” “Smile Like You Mean It” “Smile Like You Mean It” “Smile Like You Mean It” “Oh no, oh no, no no”

14 jul

– Seu pedido foi indeferido.

Ele sorriu. Tirou seu bastão de acrílico (que passou despercebido no detector de metais) e acertou o crânio do outro. Cinco vezes.

Pintura surrealista de cérebro, pedaços de ossos e muito sangue.

Final feliz.

Sobem os créditos

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Raskolnikov desceu em Santana e foi até o Leblon (o bar de sempre), acenou para o Chicão (o garçom de sempre) que lhe respondeu com um abraço (de sempre também) :

– o que vai ser Ródia?

– me traz um Claudionor e um Lucky strike verde.

(as pessoas ao redor almoçavam)

– dia curto?

– noite muito longa.

(…)

Apertou a bolinha, deu um trago final na cachaça e acendeu o cigarro.

Fechou o Kundera que terminara de ler e olhou o vazio.

Chicão apareceu com outro Claudionor:

– toma, presente.
Sorriu um agradecimento.

Estava questionando sobre a qual grupo ele próprio pertencia: ao ordinário, ou ao extraordinário,

E mais importante: Qual preço ele estava disposto a pagar para integrar A ou B.

Pensou no punhado de extraordinários que lhe importavam. E olhou a cachaça e o cigarro.

Traçou relações entre substancias e ao punhado de importantes.

Tinha a cafeína. Que o fazia se manter de pé. Necessária em doses altas e diárias.

Contato por correspondência. Dureza e disciplina: uma espécie de voz da consciência com tons de Tyler Durden e de um monge.

Tinha o cigarro. Fazia o cérebro entrar em devaneios leves, relaxar e o afastava de idéias ruins.

Sentiu os calos das pontas dos dedos e pensou no irmão, em outra cidade.

E tinha a heroína. O pico de vida e morte extremados. Vivia de verdade só ali, e morria em seguida. Sempre.

Outro sorriso de tragédia russa;

Estourou outra bolinha, deu um trago na cachaça e acendeu o cigarro.

Iscariotes

25 abr

Era uma grande sala com tapeçarias persas decorando paredes escuras. Vasos ornamentados de gosto duvidosos haviam sido retirados pouco antes de a festa começar (Apesar do mercador de especiarias patrocinador do abrigo e daquela festa se declarar incrivelmente fiel a seu mestre e estar arriscando o próprio pescoço, continuava com os mesmos hábitos ostensivos e escandalosos).

Judas era administrador em Queriote-Hesrom, cidade da Judéia, antes de se juntar a seus irmãos. Era alto e tinha um sorriso sarcástico de dentes perfeitos. Contava as melhores histórias, e destruía corações.

Estava saboreando um vinho da Galileia enquanto pensava nas voltas que sua vida dera no ultimo ano. Ele cuidava dos recursos de seus irmãos, e as coisas estavam muito mais fáceis com o apoio crescente à causa. Mesmo a perseguição romana incomodava menos.

Ele olhava pra Mateus e Tiago, conversando alto e descaradamente sobre uma das cozinheiras mais moças e do Mercador. Os dois eram quase crianças, e crianças brincam: Tiago havia serrado quase até o fim dois pés da cadeira destinada a Tomé. Quando o velho pescador chegou à sala, olhou desconfiado para os dois (que fingiam indiferença conversando sobre pesca), puxou a cadeira da armadilha e sentou.  O barulho da madeira quebrando foi incrivelmente alto, e todos riram na sala de festas.

Tomé levantava praguejando quando o Cristo entrou rindo com a cena e o ajudou a levantar.

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Todos se levantaram e partilharam o pão e a taça do mestre.
Cristo piscou para Judas, que se sentava longe e sorriu.

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multimortis

25 nov

flash.
Dois se encaram com rancor.
O primeiro relaxa os braços.
O outro ascende em ódio e lhe dá uma bofetada no rosto.
O primeiro comprime as mãos em punhos, veias e raiva – olha pro chão.
O outro espera.

O primeiro relaxa as mãos e finalmente olha pro outro.
O outro sorri. E lhe dá um soco na têmpora.
O primeiro cai.

flash.
O menino olha pra mãe.
A mãe deitada, olha pro nada. Olhos vítreos.

flash.
O casal aguarda o café falando sobre amenidades.
O rapaz levanta e vai ao toalete.
A moça aguarda e os expressos chegam.

O rapaz volta pra mesa e recebe um beijo.
A moça o espera pro café. O rapaz bebe.
A moça o espera. A cabeça do rapaz tomba na mesa.

flash
A menina me entrega uma caixa tímida.
(a caixa e a menina)
Sorri. Olho pra caixa, sorriu de volta.
Abraço e a beijo; Olho aqueles olhos assustados.
Alguma coisa peluda e asquerosa aqui dentro
grita em desespero febril e moribundo quando eu acendo as luzes.

flash!

Todos de Máscara

13 out

Então você bate a porta e espera trancar seu passado;

Caminha torto e longamente.

Tira a máscara de sorriso surrada da bolsa e a veste.

[…]

Nessa cena, o Robin Williams mostra aos

alunos o quadro com fotos de estudantes

de 70, 90, 120 anos atrás:

-Eles são invencíveis como vocês,

com o mundo e vida à frente. Agora estão todos mortos.

-Somos todos comida de vermes, só nos diferenciamos

pela hora que seremos servidos…

[…]

Dupla casualidade:

Atenção, fodam apenas seus inimigos!

[…]

Outro nascer do sol

no décimo sexto andar no Paraíso.

Café quase gelado, quase forte.

Repeat. Repeat. Repeat.

Fim do filme. Looping ligado.

Começa de novo.